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A Padroeira
Santa Teresinha do Menino
Jesus
Os pais de Santa Teresinha foram Luís e Zélia Martin, que se casaram em
1858.
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Pai de Santa Teresinha
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Mãe de Santa Tresinha
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Ambos haviam aspirado entrar para a vida religiosa. De caráter
contemplativo, mais silencioso, Luís, nascido em Bordeaux, França, aos
22 de agosto de 1823, sonhara em ser monge cartuxo. Não foi aceito
porque não sabia latim. Voltou a Alençon, onde residia com os pais, e aí
montou uma relojoaria. Zélia tentou ser religiosa visitandina, mas a
Superiora logo intuiu que a jovem não era chamada à vida religiosa.
Ambos foram levados a desistir da vocação religiosa. Após o casamento,
permaneceram convivendo como se fossem monges. Um confessor convenceu
Zélia a ter filhos e, assim preparar almas para o céu.
Não eram pessoas muito alegres. Luís tem um temperamento dado à
melancolia: seu gosto é retirar-se para uma casinhola à beira d’água,
apartada de Alençon, cidade onde moram e onde ele é relojoeiro. Zélia
afirmará que sua infância, cercada de pais severos, foi “triste como uma
mortalha”. Antes de morrer, ela escreveria a seu irmão: “É forçoso
renunciar a tudo! Eu nunca tive prazer algum na minha vida”.
Luís e Zélia vivem profundamente a espiritualidade católica de sua
época, que lhes faz ver a vida terrestre e a história como um momento
penoso a atravessar, antes de alcançar o céu. Eles não acreditam na
felicidade; e a prosperidade parece-lhes um mau sinal.
O casal vive na prosperidade. Não tanto da parte de Luís, mas da parte
de Zélia. Alençon é, na França, a capital da confecção de rendas; Zélia
cursara a Escola de rendeiras e, aos 22 anos, estabelecera-se por conta
própria. Ao casar, havia cinco anos que fabricava rendas. O seu negócio
prosperava a olhos vistos: ela ganha de oito a dez mil francos por ano.
O negócio de Luís era algo mais do que estagnante. Não demora em
desistir da relojoaria e pôr-se a serviço da esposa.
Eis, pois, como era o casal Martin: ele, um sonhador austero e
melancólico. Ela, uma pessoa angustiada, que afogava na atividade as
próprias ansiedades, pois o seu desejo era que cada uma das filhas
tivesse um destino feliz, que todas tivessem um dote à altura.
Quando Teresa nasceu, no dia 2 de janeiro de 1873, Maria, a primogênita
das meninas Martin, preferida de Luís, tem doze anos. Paulina, a segunda
filha, é a preferida de Zélia, na qual a mãe vê seu próprio retrato. A
terceira, Lêonia, não é morena como as precedentes, mas loura de olhos
azuis, todavia, menos bonita do que as outras. Entre ela e sua mãe não
tardou a criar-se um clima de antipatia: “Ela não me fará tanta honra
quanto as outras”, dizia Zélia. De fato, Leônia tem saúde frágil,
caráter difícil e uma inteligência acima da mediana.
Celina tem quatro anos mais do que Teresa. Dotada duma extraordinária
vivacidade. Seu pai a denomina “a intrépida”. Breve Teresa seria a
companheira inseparável de Celina. Celina com quem se parece e da qual
não pode prescindir.
Teresa, quando nasce, é uma criança frágil. Desde o nascimento, exige
cuidados,
pois é vítima de crises de enterites. Confia-se então Teresa a uma
ama-de-leite, chamada Rosa Taillé e que todos chamam “Rosinha”; a ama,
que tem quatro filhos, mora em Semallé, a 8 km de Alençon, num pequeno
sítio com uma só vaca. Eis, pois, Teresa fora da casa paterna, com
apenas seis meses de vida, nas mãos de uma ama-de-leite; e sem demora,
ela recupera as forças, engorda, dá mostras de uma saúde maravilhosa.
Quando a vêm mostrar aos seus, em Alençon, Teresinha repele
vigorosamente a mãe, debate-se, solta gritos. Destarte, os quinze
primeiros meses da vida de Teresa transcorrem no campo, numa fazendinha,
em meio às pradarias.
Volta para casa em abril de 1874. Faz três meses que já caminha. Agora,
é-lhe vedado correr em liberdade, mora dentro de uma casa onde é objeto
de constante desvelo dos pais, das quatro irmãs, das operárias de sua
mãe. Aliás, esta se esmera tanto mais por mimá-la, porque censura a si
mesma o não ter podido alimentá-la pessoalmente. Por seu turno, Teresa,
a que chegou por último, exige o primeiro lugar, exige tudo. Colérica,
obstinada, impaciente, é dotada de uma vitalidade a toda prova.
A Sra. Martin trabalha com tanto afinco por ser uma mãe angustiada com o
futuro das filhas; tanto mais angustiada por ter sentido uma dor no seio
desde o início de 1865, primeiro sintoma de um câncer que a mataria. Com
o passar dos anos, ela se transforma numa pessoa obcecada pela idéia da
morte. Em agosto de 1876, Teresa tem três anos e meio. O médico anuncia
à Sra. Martin que ela tem um câncer incurável. Voltando para casa, não
pode evitar dar a má notícia. Sabendo estar condenada, a Sra. Martin faz
suas recomendações; a Isidoro, seu irmão, e sua esposa, ela confia as
filhas. O Sr. Martin fecha-se no próprio sofrimento. O mal conquista
inexoravelmente sua esposa. No dia 26 de agosto, dão-lhe a
extrema-unção, cerimônia que impressiona profundamente Teresa. Zélia
falece no dia 27 de agosto, à meia-noite. Dia 28, pela manhã, Teresa é
despertada pelo pai que a toma nos braços e a carrega até o quarto onde
jaz a falecida. “Vem beijar uma última vez a tua mãezinha”.
A Sra. Martin quisera que, depois de sua morte, o marido e as filhas
fossem morar em Lisieux, onde o irmão Isidoro é farmacêutico. Ela confia
neste irmão, na sua energia. Receia que o marido não seja capaz, com seu
temperamento sonhador, de ocupar-se cabalmente das cinco filhas. Os
amigos e conhecidos de Luís, bem como sua mãe que ali morava,
dissuadiram-no de abandonar Alençon. Mas Isidoro Guérin lembra ao
cunhado o desejo da falecida; sem mais delongas, pôs-se à procura duma
moradia para Teresa, seu pai e suas irmãs. Doze dias depois da morte da
Sra. Martin, o pai cumpriu o desejo da falecida: descobrir em Lisieux
uma casa com jardim.
A 15 de novembro de 1877, depois duma última visita ao cemitério de
Alençon, Luís Martin e as filhas partem para Lisieux. Esta cidade está
situada no coração da Normandia. É uma cidade pitoresca: naquela época,
ruas inteiras de casas de madeira emprestavam-lhe um aspecto medieval
encantador. A pedido do cunhado, o Sr. Guérin encontrou em Lisieux,
próxima à sua própria residência, uma casa encantadora dominada por um
mirante, conhecida como “Os Buissonnets”. Teresa morará mais de dez anos
nesse ambiente aprazível.
Para a caçula convergem as ternuras das irmãs mais velhas, que se
fizeram suas “mãezinhas”; e, especialmente, as do pai, seu “rei
querido”, que demonstra um “amor verdadeiramente maternal”.
No início de janeiro de 1878, Leônia e Celina são entregues às
beneditinas da cidade. Paulina desdobra-se, então, para a pequena
Teresa, em professora firme e afetuosa. A aluna se mostra muito aplicada
em aprender a escrever sozinha antes dos sete anos.
Em
outubro de 1881, quando está com oito anos e meio, Teresa ingressa como
semi-interna na abadia das beneditinas. Porém, a menina mimada e
solitária dos Buissonnnets não consegue integrar-se ao grupo. Apesar dos
bons resultados escolares, e, sobretudo, do afeto das religiosas, Teresa
designará esses cinco anos de internato como “os mais tristes anos da
sua vida”.
Nessa época, seu grande sonho era ir um dia, com Paulina, “para um
deserto remoto”. De fato, Paulina, que está com 21 anos, dirige o olhar
para o “deserto” do Carmelo. Sua partida é rapidamente decidida. Teresa
fica sabendo, com surpresa, durante o verão de 1882. O golpe é brutal.
Paulina explica-lhe o que é o Carmelo e Teresa pensa com seus botões que
o Carmelo é o “deserto” onde Deus quer que ela vá se esconder. Ela o diz
a Paulina e, algum tempo depois, à própria priora do Carmelo.
Não somente Paulina a abandona para entrar no Carmelo, mas também muda o
seu modo de tratar Teresa, esquivando-se a qualquer contato direto com
ela. Furta-se a continuar servindo-lhe de mãe. Mais tarde, Teresa
contaria: “Confesso que os sofrimentos que tinham precedido a sua
entrada nada foram em comparação com os que se lhe seguiram. Todas as
quintas-feiras nós íamos ‘em família’ ao Carmelo e eu, acostumada que
estava a abrir-lhe o meu coração de par em par em entretenimentos
familiares, só a muito custo conseguia dois ou três minutos no fim da
entrevista no locutório: naturalmente, passava-os chorando e
retiravam-me com o coração dilacerado...”. Era uma segunda morte: “Para
mim, Paulina está perdida!”.
A reação de Teresa não poderia ser pior. Adoece, procurando provocar
atenções maternais da sua tia Guérin e da irmã, Maria, a quem chama
incessantemente: “Mamãe, mamãe”, forçando-a a permanecer junto dela.
No dia 23 de março de 1883, o Sr. Martin leva Maria e Leônia a Paris
para as cerimônias da Semana Santa. Já aflita, entregue a seu tio e sua
tia, Teresa não consegue superar esta breve separação. Na tarde da
Páscoa, 25 de março, o Sr. Guérin, sem se dar conta, completa a tragédia
quando evoca a lembrança da Sra. Martin. Algumas horas mais tarde, a
menina é tomada por tremores nervosos aos quais sucedem crises de medo e
alucinações. Chama-se com urgência o Sr. Martin e suas filhas. Maria
instala-se à cabeceira da menina, na casa dos Guérin, pois ela não pode
ser transportada.
O desejo de abraçar Pauline, mais uma vez, por ocasião da tomada de
hábito, provoca uma melhora, em 6 de abril. No dia seguinte, há recaída,
nos Buissonnets. Manifestações desoladoras multiplicam-se. A “estranha
doença” desnorteia o Dr. Notta, que, por um momento, fala de “dança de
São Guido”, mas exclui formalmente a histeria.
Após cinco semanas de angústias, a fé da família Martin consegue
finalmente a cura da doença diante da qual a ciência fora impotente. No
domingo, 13 de maio de 1883, dia de Pentecostes, a menina sente-se
repentinamente curada pelo “encantador sorriso da Santíssima Virgem”.
Poder-se-ia julgar que a conseqüência de tal evento fosse apaziguar
profundamente Teresa. Na realidade, pôs-se a perguntar a si mesma se
tudo aquilo não fora inventado por ela. Começou a sofrer de enxaquecas.
Em maio de 1885, durante o retiro preparatório à comunhão solene, um
sermão frenético dum padre que pregava sobre o medo do inferno fez
despertar nela o que denominou “a doença terrível dos escrúpulos”,
doença esta que só findaria no Natal de 1886: “É preciso ter passado por
este martírio para ter dele uma justa compreensão: ser-me-ia impossível
dizer tudo o que eu sofri durante um ano e meio... Todos os meus
pensamentos e ações as mais triviais tornavam-se causa de perturbação.”
No
Natal de 1886, Teresa é ainda uma criança, que retorna da missa do galo
toda apressada para procurar seus presentes. Mas Luís Martin está farto
dessas atitudes infantis. Ela conta: “Enfadou-se ao ver meus sapatos na
lareira e disse as seguintes palavras, que me transpassaram o coração: “
Afinal, ainda bem que este é o último ano!” Teresa dá-se conta de que,
cedo ou tarde, precisará renunciar à infância, abrir mão de todas as
criancices. Chama este Natal de “Noite de luz”, “Noite da minha
conversão”, quando deixa de lado os “ defeitos da infância”. Insistirá
muito na importância desta noite de Natal: “Desde esta noite abençoada,
eu não fui vencida em nenhum combate, pelo contrário, caminhei de
vitória em vitória”. O que ela recebe é um Dom de força e de coragem.
No dia de Pentecostes de 1887, seis meses depois de sua conversão,
Teresa comunica ao pai que quer entrar para o Carmelo. Mas tem apenas 14
anos! O pai abençoa sua vocação e a conduz ao bispo de Bayeux. O vigário
da paróquia de Saint-Jacques, superior canônico do Carmelo, nem sequer
aceitava falar de tamanha loucura. E é a este padre que Mons. Hugonin
remete a questão de Teresa.
O Sr. Luís, que tanto gostava de peregrinações, resolveu levar Teresa a
Roma e, sobretudo permitiu à filha falar de sua vocação ao Papa para
conseguir autorização para ingressar no Carmelo aos 14 anos. Na
audiência do Papa, a 20 de novembro de 1887, Teresa fez o seu pedido.
Leão XIII deixa nas mãos dos Superiores a decisão. Na realidade, quem
tinha a chave de sua entrada para o Carmelo era Mons. Hugonin. Ele
dissera que lhe daria a resposta por escrito. Começa para Teresa uma
longa espera. A resposta chegou a 28 de dezembro: o bispo escreve à
priora do Carmelo de Lisieux confiando-lhe a decisão. Madre Maria de
Gonzaga comunica esta resposta a Teresa no dia 1º de janeiro, véspera
dos seus quinze anos.
As
portas do Carmelo se abririam para Teresa na segunda-feira, 9 de abril
de 1888. No dia 10 de janeiro de 1889 recebe o hábito de carmelita. Ela
acabara de completar dezesseis anos. Depois de um ano, a jovem religiosa
poderá emitir os votos perpétuos. Em janeiro de 1890, alcançaria os
exatos 17 anos exigidos pelas Constituições para o compromisso
definitivo. Os superiores julgam mais prudente adiar: uma prolongação
lhe é imposta.
A cerimônia de 10 de janeiro foi, para o Senhor Martin, “seu triunfo,
sua última festa neste mundo”. O drama do pai começa no dia 12 de
fevereiro: ele, doente, vê “coisas horríveis, carnificinas, batalhas”. O
tio Guérin decide transferir imediatamente o cunhado para uma casa de
saúde, o Bon Sauver de Caen. Teresa é atingida bem no coração e não
ignora que em Lisieux muitos a consideram responsável pela doença do
pai, abalado pela partida sucessiva de suas filhas para o convento. Os
meses se sucedem. A esperança de uma melhora para o Sr. Martin
enfraquece.
Na manhã do dia 24 de setembro de 1890 Teresa recebe o véu negro. Não há
mais comunicação possível com seu pai, internado desde fevereiro de
1889. Porém, anos depois, uma surpresa: no dia 12 de maio de 1892, o tio
Isidoro chega ao Carmelo trazendo o Sr. Luís Martin. Fora buscá-lo no
manicômio de Caen. Em momento de lucidez, queria ver as filhas que, ao
verem o pai no locutório, ficaram imensamente tristes: estava magro e
pálido. Lúcido, nada dizia. Apenas ouvia. Quanto a Teresinha, teve
apenas forças para rezar: “Muito obrigada, ó Deus, pelo bom pai que nos
destes. Pudemos ver nele uma imagem do amor que tens por todos os
homens”. Ao sair do locutório, o pai, apontando para o alto com o
indicador, apenas conseguiu dizer uma palavra: “No céu”. Celina
continuava com Leônia a cuidar do pai na casa dos Guérins.
Quando
Paulina, Irmã Inês foi eleita priora, resolveu nomear a ex-priora Madre
Maria de Gonzaga como Mestra das Noviças. Teresinha foi nomeada sua
ajudante. Além de ser ajudante de mestra, foi encarregada de pinturas,
da confecção de imagens e das festas conventuais. Nessa ocasião estreou
compondo versos e poesias.
No verão de 1893 acharam melhor levar o pai de Teresinha da cidade de
Caen para o castelo de La Musse. Desta vez Leônia não quis ir com o pai
e Celina. Após um retiro na visitação de Caen, ela voltou com o firme
propósito de fazer uma nova tentativa para a vida religiosa.
Teresinha começou a sentir umas dores de garganta em conseqüência da
poeira e das emanações da lavagem de roupas e louças. Depois vieram umas
contínuas dores no peito. Paulina não teve coragem de chamar o médico da
família, um primo, o Dr. Francis La Néele. O médico oficial da
comunidade era o Dr. Cornière, grande amigo de Madre Maria de Gonzaga.
No
dia 14 de setembro de 1894 entra para o Carmelo de Lisieux mais uma
Martin, Celina. Desde o tempo de Teresa de Ávila nunca um Carmelo
acolhera quatro irmãs da mesma família. Teresinha não sabia como
agradecer a Deus.
As dores de garganta de Teresinha persistiam. Já causavam sérias
apreensões. Os remédios não surtiam nenhum efeito. Não obstante, ela não
diminuía as suas atividades. Antes, seus trabalhos aumentaram com a
entrada de mais quatro postulantes, entre elas, Celina.
Em fins de 1894, Teresinha começou a se questionar. Há seis anos entrara
para o Carmelo e jamais abrira mão do desejo de se tornar santa. A
leitura da vida dos grandes santos deixou-a meio confusa. Todos esses
santos distinguiram-se por uma vida de grandes mortificações, praticaram
em alto grau toda as virtudes e Deus dotou-os dos mais extraordinários
dons e carismas. Perto deles, ela se julga um “obscuro grão de areia”.
Mas não desanima. Não se sente apta a “subir a rude escada da
perfeição”, mas há que se santificar por outro caminho. Lembrou-se então
de que ouvira, num retiro, o Pe. Prou falar de um caminho pequeno e
reto, completamente novo para se chegar ao amor total. Teresinha
descobre esta “Pequena Via”, que se tornará a essência de sua
espiritualidade. Já que não consegue, através de férreas disciplinas e
sacrifícios, alcançar a santidade, Jesus mesmo será sua santidade. Ele
irá conduzi-la nos braços até a Montanha do Amor. O seu pequeno caminho
será o do abandono, da entrega confiante nas mãos do Pai.
Teresinha descobre a alegria de ser pequena. Se ela não ensinou nada de
novo, ensinou um novo modo de fazer-se pequeno. Significa reconhecer que
somos pequenos diante de Deus; significa acreditar que Deus se agrada de
quem se faz pequeno na humildade.
Numa
noite de inverno de 1895, as irmãs Martin conversavam na sala aquecida.
A mais nova, Teresinha, com seu jeito desembaraçado, contava às irmãs
lembranças do passado, nos Buissonnets. Maria volta-se para Paulina, a
priora, e sugeriu-lhe para pedir a Teresinha para escrever suas
lembranças da infância. A conversa terminou com uma ordem de Paulina
para que escrevesse suas memórias. Teresinha obedeceu e em pouco tempo
encheu o primeiro caderno. Celina foi sua primeira leitora. Estava
começando a escrever a “História de uma Alma”.
Um dia, após a missa da Santíssima Trindade, Teresa quis oferecer-se
como vítima de holocausto ao Amor Misericordioso. Pediu a obteve
permissão da Priora. Quis que Celina também o fizesse. Foi diante da
imagem de Nossa Senhora das Vitórias que fez sua consagração, ela e a
irmã.
Um
dia, quando lavava roupas, Teresa foi chamada pela Priora. Paulina
disse-lhe logo do que se tratava. Um futuro sacerdote e missionário
pedia orações ao Carmelo. Chamava-se Maurice Bellière, de 22 anos.
Teresinha aceitou ser sua “irmã” espiritual, fazendo pequenos
sacrifícios por ele. Mais tarde foi-lhe confiado outro sacerdote e
missionário: Adolfo Roulland, que depois de ordenado seria enviado para
as missões na China. Sem sair do Carmelo, ela foi irmã de caminhada dos
sacerdotes e missionários. Acreditava que podia estar sempre “unida às
obras de um missionário pelos laços da oração, do sofrimento e do amor”.
Era a Semana Santa de 1896. Na noite de Quinta-feira Santa, 3 de abril,
Teresinha estava no coro fazendo adoração. Fica aí até meia-noite.
Depois vai repousar. Mal se deita, sente uma golfada, como vômito, que
lhe sobe até os lábios. Como a lâmpada já estava apagada, ela não quis
verificar. Só no dia seguinte pôde constatar. O vômito era sangue. Não
teve medo. Era um anúncio do Bem Amado de seu coração. No dia seguinte,
conta o ocorrido à Priora, completando: “Estou passando bem, e
suplico-lhe que não me conceda nada de especial”. A Priora, sem se dar
conta do estado real de Teresinha, concorda. Durante o dia Teresinha se
entrega aos trabalhos na forma de sempre.
Na noite seguinte, o mal se repete. Teresinha é socorrida e atendida
pelo Dr. Néele. O diagnóstico do médico e os remédios não surtiram o
mínimo efeito de alívio para Teresinha. Ela só podia sonhar de em breve
estar junto do Bem Amado!
O sexto aniversário de sua profissão religiosa Teresa preferiu passá-lo
na solidão. Nesse dia um raio de luz iluminou-a, e ela pôde escrever: “Ó
meu Bem Amado, no sexto aniversário de nossa união, perdoa se te digo
disparates. Peço que concedas a minha alma o que ela espera”.
Teresa
fez questão de não se dispensar de nada. Andava pelos corredores do
claustro exposta à neve, ao frio e à chuva sem baixar a cabeça e sem se
proteger. Passava longas horas no coro sem se encostar em nada, sem
desfalecer, mesmo quando mal podia respirar. Esforçava-se por rir,
gracejar, e mostrava-se interessada por tudo. Comia de tudo o que lhe
apresentavam. Ninguém a ouvia tossir durante a noite. Encarregava-se dos
pequenos serviços da comunidade. Costurava, pintava, escrevia versos e
cartas enquanto havia luz em seu quarto. Quando estava só é que tudo
mudava. As energias lhe fugiam. Sentia imensa dificuldade em subir e
descer escadas. Passava as noites com febre e frio; tossia sangue. É
simplesmente incompreensível que durante todo o tempo do inverno ninguém
tivesse notado a gravidade de sua doença. Ela queria morrer em
atividade. Enquanto isso a doença progredia. Permaneceu fiel em não
pedir nenhuma isenção. Madre Gonzaga, de seu lado, não tomava a mínima
iniciativa em providenciar-lhe os cuidados necessários.
Só depois que o estado de Teresinha se complicou é que Madre Gonzaga
resolveu desvelar-se mais do que uma mãe. Desde abril Paulina não saía
de perto da irmã enferma, para anotar tudo o que ela podia dizer. O
período de maio a 30 de setembro de 1897, dia de sua morte, foi uma
longa agonia. Desenganada pelos médicos, Teresa esperava morrer. Mas,
apenas viu adiar-se sempre mais a sua agonia.
No
dia 3 de junho, por sugestão de Madre Gonzaga, começa a escrever suas
memórias. Suas relações com a Priora haviam melhorado muito. A partir
deste dia as irmãs de Teresinha crivam-na de mil perguntas como se
quisessem arrancar-lhe todos os segredos e mistérios de seu coração. As
três irmãs estavam absolutamente convencidas que Teresa era uma santa.
Por isso queriam recolher cada uma de suas palavras para transmiti-las
depois à posteridade.
Em julho vê pela última vez seus familiares. Neste mesmo mês já não
consegue retomar a pena para escrever. Pede a unção dos enfermos. Com
fervor diz: “Eu creio! Eu amo para crer mais firmemente!” Até agosto as
hemoptises repetem-se. No dia 8 de julho tem de ser levada para a
enfermaria onde inicia uma longa agonia de doze semanas. Leva consigo a
imagem de Nossa Senhora das Vitórias. Em tudo depende dos outros. Os
sofrimentos físicos vêm todos juntos: febre, suores, falta de ar,
insônia.
As religiosas, em particular suas três irmãs, velam-na noite e dia.
Compreende-se que ela repetisse: “oh! como se deve rezar pelos
agonizantes!” Os dois meses derradeiros passam-se inteiramente nas
trevas. No dia 29 de setembro, questiona: “Como é que vou fazer para
morrer? Eu nunca vou saber morrer”.
Dia
30, na manhã de sua morte, diz: “Eu não me arrependo de me ter
abandonado ao Amor”. Às horas finais, as mãos ficam geladas, o rosto se
congestiona. De quando em quando, Teresa solta breves gemidos de
sofrimento. Às sete horas da noite, ela fita o Cristo crucificado e diz:
“Eu vos amo”, inclina a cabeça e expira.
O
corpo ficou exposto no coro, atrás das grades, de sexta a domingo, para
a visitação dos parentes e amigos. Todos queriam vê-la e tocá-la com
terços e medalhas, como se já quisessem pedir-lhe graças e favores.
No dia 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, foi sepultada no
cemitério de Lisieux a Irmã Teresa do Menino Jesus da Santa Face,
falecida aos 24 anos. Quem dirige o cortejo fúnebre é sua irmã Leônia;
de coração despedaçado. Havia muito pouca gente no pequeno cemitério.
Depois do enterro o Carmelo voltou à rotina.
Quando Teresinha já estava na enfermaria, ouviu uma Irmã dizer: “Eu não
sei porque falar tanto de Irmã Teresinha; ela não faz nada de nota;
ninguém a vê praticar a virtude, nem sequer se pode dizer que ela seja
uma boa religiosa”.
Paulina assumira o compromisso de publicar os escritos da irmã. Por isso
pôs logo mãos à obra. Em pouco tempo transformou-os num volume de 474
páginas. Assim, um ano depois, em 1898, aparece a “História de uma
Alma”, com uma tiragem de dois mil exemplares. Em 1899 foi preciso fazer
uma nova edição. Em 1900 tinham sido vendidos seis mil exemplares. Nos
anos seguintes saem as traduções para o inglês, alemão, italiano,
espanhol, português, japonês e russo.
Chegam ao Carmelo de Lisieux milhares de cartas e pedidos de lembranças
e relíquias. As romarias e visitas ao túmulo foram-se somando. Chegaram
notícias de graças alcançadas, de conversões, etc. As próprias irmãs não
sonhavam tamanho sucesso. O certo é que de uma fagulha fez-se um
incêndio.
Em 1906 o Pe. Prévost encarrega-se de dar os primeiros passos na causa
da beatificação e canonização de Teresinha. O processo foi mais rápido
do que se podia esperar. O Papa Pio X, antecipando-se, chamou Teresinha
“a maior santa dos tempos modernos”.
Em 1921 o papa Bento XV promulgou o decreto de heroicidade de suas
virtudes. Depois, seu sucessor, Pio XI, fez dela a “estrela de seu
pontificado”. No dia de sua beatificação, 23 de abril de 1923, sua vida
foi considerada uma “Palavra de Deus” para o nosso século. Finalmente,
no dia 17 de maio de 1925, o papa Pio XI, contrariando as leis
canônicas, diante de cinqüenta mil pessoas dentro da Basílica de São
Pedro e diante de mais de quinhentas mil pessoas reunidas na Praça de
São Pedro, em Roma, canoniza Teresinha. A cerimônia contou com a
presença de 33 cardeais e 250 bispos do mundo inteiro. Dois anos depois
o mesmo Pio XI proclama Santa Teresinha “padroeira principal das
missões”, pondo-a em pé de igualdade com o grande missionário São
Francisco Xavier.
Quando visitou a França, o papa João Paulo II quis visitar também
Lisieux. Na ocasião, ele falou diante de uma multidão de mais de cem mil
pessoas: De Teresinha pode-se dizer com convicção que o Espírito de Deus
permitiu ao seu coração revelar diretamente aos homens do nosso tempo o
mistério fundamental, a realidade fundamental do Evangelho: o fato de
termos recebido realmente ‘um espírito de filhos adotivos que nos faz
exclamar: Abba! Pai!’’.
O papa Pio XII, em 1944, declarou-a padroeira da França em pé de
igualdade com Santa Joana d’Arc.
No dia das Missões de 1997, ano do centenário de sua morte, Teresinha
foi proclamada Doutora da Igreja pelo papa João Paulo II, na Basílica de
São Pedro em Roma.
Texto compilado dos seguintes livros:
- Vida de Santa Teresinha, Orlando Gambi, Editora Santuário, 1997
- Teresa de Lisieux, Jean François Six, Ed. Loyola, 1997
- Obras Completas, Ed. Loyola, 1997, Referências Históricas. |